Smart cities na Europa

[Do artigo de CARAGLIU, Andrea; DEL BO, Chiara; NIJKAMP, Peter. Smart Cities in Europe. Journal of Urban Technology, Vol. 18, No. 2, April 2011, 65–82. Routledge, Taylor & Francis. Link para texto com mesmo título, de 2009]

O trabalho objetiva lançar luz sobre a definição de “cidade inteligente”. O rótulo “cidade inteligente” deve apontar para soluções inteligentes permitindo que as cidades modernas prosperem através de melhorias quantitativas e qualitativas de produtividade.

Os autores acreditam que a presença de uma classe criativa, que a qualidade e a atenção dedicadas ao ambiente urbano, o nível de educação, o acesso e a utilização das TIC para a administração pública estejam positivamente correlacionados com a riqueza urbana.

O Manual de Oslo (2005) da OCDE e EUROSTAT destaca o papel da inovação no setor de TIC e fornece um conjunto de ferramentas para identificar indicadores consistentes, conformando um quadro sólido de análise para pesquisadores em inovação urbana.

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Embora várias definições diferentes de cidade inteligente tenham sido dadas no passado, a maioria delas se concentra no papel da infraestrutura de comunicação. Esse viés reflete um período em que o rótulo cidade inteligente ganhou interesse, no início de 1990, quando as TIC pela primeira vez alcançaram um grande público nos países europeus.

O rótulo de “cidade inteligente” ainda é um conceito bastante confuso. As características de uma cidade inteligente que tendem a ser comuns são:

  • A utilização da infraestrutura de rede para melhorar a eficiência econômica e política e para permitir o desenvolvimento social, cultural e urbano

“Infraestrutura” indica serviços para negócios, habitação, lazer, estilo de vida e as TIC (telefones fixos e móveis, redes de computadores, e-commerce e serviços de Internet). Isso traz à tona a idéia de cidade conectada como o principal modelo de desenvolvimento e conectividade como fonte de crescimento.

  •  Ênfase em desenvolvimento urbano liderado por negócios

Há várias críticas ao conceito de cidade inteligente como cidade voltada para atrair novos negócios. No entanto, apesar de advertências sobre os riscos associados ao peso excessivo dado a valores econômicos como único motor do desenvolvimento urbano, os dados realmente mostram que cidades orientadas a negócios estão, de fato, entre aquelas com desempenho socioeconomico satisfatório.

  • Forte foco no objetivo de inclusão social nos serviços públicos

Os autores perguntam: até que ponto todas as classes sociais se beneficiariam de uma integração tecnológica do seu tecido urbano?

  • Ênfase sobre o papel crucial das indústrias de alta tecnologia e criativas no crescimento urbano de longo prazo

Embora a presença de uma força de trabalho criativa e habilidosa não garanta o  desempenho urbano, numa economia intensiva em conhecimento e crescentemente globalizada, esses fatores cada vez mais determinarão o sucesso das cidades.

  •  Grande atenção para o papel do capital social e relacional no desenvolvimento urbano

Quando as questões sociais e relacionais não são devidamente levadas em conta, a polarização social pode surgir como resultado. Esta última questão também está ligada à polarização econômica, espacial e cultural. O debate sobre os possíveis efeitos sobre a desigualdade de classe decorrentes de políticas orientadas para a criação de cidades inteligentes ainda não está resolvido.

  • Sustentabilidade social e ambiental como importante componente estratégico das cidades inteligentes

Os autores se dedicam a fornecer evidência quantitativa e analítica do papel da classe criativa e do capital humano no desenvolvimento urbano sustentável, argumentando que é realmente a combinação dessas duas dimensões que determina a própria noção de cidade inteligente.

O projeto conduzido pelo Centre of Regional Science at the Vienna University of Technology identifica seis principais “eixos” (dimensões) ao longo dos quais um ranking de 70 cidades médias europeias pode ser feito. São eles: economia inteligente, mobilidade inteligente, ambiente inteligente, pessoas inteligentes, vida inteligente e, finalmente, governança inteligente. Esses seis eixos se conectam com as tradicionais teorias regionais e neoclássica do crescimento urbano e desenvolvimento.

Os autores acreditam que isso oferece uma base sólida para o quadro teórico e baseiam sua definição sobre esses seis eixos. Eles afirmam que uma cidade é inteligente quando os investimentos em capital humano e social e infraestruturas de comunicação tradicionais (transportes) e modernas (TIC) fomentam o crescimento econômico sustentável e uma qualidade de vida elevada, com boa gestão dos recursos naturais, através de uma governança participativa.

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O artigo apresenta evidências do desempenho relativo e rankings de cidades européias com relação a medidas que refletem algumas das definições de uma cidade inteligente dadas na literatura. A base de dados urbanos utilizada é Urban Audit (2003-2006), que apresenta indicadores e estatísticas comparáveis para cidades européias, nos seguintes domínios: demografia, aspectos sociais, aspectos econômicos, envolvimento cívico, formação e educação, viagens, ambiente e transportes, sociedade da informação, cultura e lazer.

Dados do Urban Audit mostram evidências da associação positiva entre riqueza urbana e a presença de grande número de profissionais criativos, o alto escore no indicador de acessibilidade multimodal, a qualidade das redes de transporte urbano, a difusão das TIC (mais notadamente no setor de e-governo) e, finalmente, a qualidade do capital humano. Essas associações positivas definem, segundo os autores, uma agenda política para as cidades inteligentes, apesar de clareza não implicar, necessariamente, facilidade de implementação.

Todas as variáveis positivamente associadas com o crescimento urbano podem ser concebidas como estoques de capital, que são acumulados ao longo do tempo e estão sujeitos à decadência.  Assim:

  • educar as pessoas é um sucesso somente quando o investimento em educação é realizado durante um longo período com um fluxo estável de recursos;
  • redes de transporte devem ser constantemente atualizadas conforme outras cidades de rápido crescimento, a fim de manter-se atraindo pessoas e idéias;
  • o ritmo acelerado da inovação na indústria de TIC exige uma reestruturação contínua e profunda reestruturação da infraestrutura de comunicação, para evitar que as cidades europeias percam terreno perante a concorrência global.

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