Oralidade e espaço público na Italia do Renascimento

20, outubro, 2014 Sem comentários

[Fonte: Rospocher, Massimo. La voce della piazza. Oralità e spazio pubblico nell'Italia del Rinascimento. p-. 9-29. In: Rospocher, Massimo (org). Oltre la sfera pubblica. Lo spazio della politica nell'Europa moderna. Bologna: il Mulino, 2013.]

 

O espaço é resultado da interação entre lugar físico, objeto e indivíduos (Kumin, 2009), produto tanto dos desenhos da autoridade quanto do agir cotidiano de quem o atravessa.

A praça do Renascimento não era o lugar vazio e geometricamente perfeito descrito nos tratados urbanísticos do Quatrocento. Era um espaço praticado, segundo a definição de De Certeau, modelado pela presença da gente que nele vivia cotidianamente.

A praça representava um potente detonador, não apenas pela reconhecida qualidade sonora que duplicava a força das palavras, mas sobretudo pela potencialidade agregativa.

A praça representa o elemento unificador, real e metafórico, do espaço da oralidade politica.

Bakhtin sublinhava a importância da oralidade no interior dessa arena pública, na forma de discursos e conversações informais, fofocas, canções, produzidos por diversos grupos sociais, profissões. Uma pluralidade que também se manifesta na esfera pública contemporânea.

Considerar hoje a dupla dimensão oral/discursiva e física/material do espaço público da primeira modernidade é essencial para refletir sobre o mundo atual – uma sociedade dominada pelo poder da comunicação, onde a tecnologia modificou a dinâmica da sociabilidade, da participação e da representação política. Uma realidade contemporânea em que o espaço público “virtual” parece conviver com um renascimento da dimensão física da esfera pública, determinada pela nova fruição de modo associado de lugares públicos como as praças.

A cidade

20, outubro, 2014 Sem comentários

[CACCIARI, Massimo. La città. Rimini: Pazzini ed., 5 ed. 2012. Collana Al di là dello detto]

Não existe a cidade, existem diversas e distintas formas de vida urbana. Não existe um correspondente do grego pólis em latim. Quando o grego fala de pólis pretende indicar a sede, a casa, um lugar em que determinada estirpe, uma determinada gente tem a própria raiz. Na língua grega o termo pólis ressoa forte uma ideia de enraizamento. A pólis é aquele lugar onde determinada gente, específica por tradição, por costume, tem lugar, tem seu próprio éthos.

Em grego éthos é um termo que mostra a mesma raiz do latino sedes, e não há nenhum significado simplesmente moral. Os mores latinos são tradições, costumes; o éthos grego bem antes de qualquer costume e de qualquer tradição é a sede, o lugar onde a minha gente tem a sua casa tradicional. E a pólis é exatamente o lugar do éthos, o lugar que dá sede a uma gente.

Esta determinação ontológica e genealógica do termo pólis não está presente no termo latino civitas. No termo civitas se manifesta a proveniência da città da civis. Os cives formam um conjunto de pessoas reunidas para dar vida à cidade. Civitas é um termo que deriva da civis, como um produto dos civeis em sua concordância de, em conjunto e em um mesmo lugar, dar-se a mesma lei. Em grego, pelo contrário, a relação é arruinada, porque o termo pólis deriva de polítes, o cidadão. Polítes designa o cidadão, civitas designa a cidade.

Os romanos vêem, desde o início, que a civitas é aquilo que vem produzido pelo colocar-se junto diversas pessoas sob a mesma lei, para além da sua etnia ou religião. Esse é um aspecto absolutamente característico e extraordinário da Constituição romana com respeito a toda a história das cidades gregas e helenísticas precedentes. E iddo é fundamental para compreender toda a força política da história romana, o acento político que domina a história romana. Leia mais…

Nantes, diálogos cidadãos e eventos de cultura digital

20, setembro, 2014 Sem comentários

A cidade de Nantes (França) denomina “Dialogue citoyen” os lugares, instâncias e ocasiões em que seus cidadãos se engajam no diagnóstico, concepção, realização e avaliação de políticas públicas. Os princípios da participação pública estão na Carta publicada em 2010, que reconhece a importância do debate político e contraditório. Reconhece que o debate público via mídia, partidos políticos e associações e que o exercício dos direitos e liberdades individuais e coletivas constitui os espaços e formas irrevogáveis da via democrática local, independentemente da administração pública.

Atualmente a cidade se engaja sobre o que fazer com as margens do rio Loire, que corta a cidade. Segundo o jornal Nantes Métropole, as novas faces de uma cidade se escondem em terrenos abandonados, que se transformam em lugares habitados. Nos próximos 15-20 anos mais de 200 ha situados nas margens do rio Loire se transformarão em lugares de conversação urbana.

Realizada em 2010-2012, Nantes 2030 foi uma experiência de participação pública voltada para imaginar a cidade. A seguir, em outubro 2014, haverá uma nova ocasião para a participação: a agência de urbanismo da cidade produzirá um documento base que será colocado à disposição de experts, cidadãos e associações para que exprimam suas ideias, comentem e coloquem questões focadas sobre o rio Loire. O debate se dará sobre: os usos do Loire, a vocação econômica e ecológica do rio, mobilidade e acessibilidade ao Centro da cidade (o rio se constitui uma barreira natural ao acesso), a qualidade urbana dos espaços públicos do Centro e sua relação com o rio.

Nantes também candidata-se ao título de Metropole French Tech. Ou seja, pretende ser reconhecida por se constituir como ambiente atrativo para o florescimento de startups. A cidade se afirma como metrópole com forte apelo à inteligência digital, se afirma como um ecossitstema digital (numérique), que reúne atores desse ambiente: empresários, pesquisadores, investidores, associações que trabalham em rede e organizam eventos.

Entre os eventos do mês de setembro, está o Nantes Digital Week, que conta com eventos e instalações realizadas em várias partes da cidade. A conferência Digital Intelligence 2014 foi um evento científico dedicado ao estudo da cultura digital emergente, considerada uma forma de viver. Foram keynote speakers Nicole Dewandre (European Comission), Jeffrey Schnapp (Havard University), Gérard Berry (French Academy of Sciences), Chris Salter (University of Concordia), Carlo Ratti (MIT Senseable Lab) e Serge Abiteboul (INRIA & ENS Cachan).

Análise de redes e visualização de textos para apoiar o conhecimento

1, agosto, 2014 Sem comentários

A análise de redes, além das suas aplicações à análise de comportamento de grupos, difusão do conhecimento em organizações, conexões culturais em diferentes países, também auxilia a análise de conteúdo. Apoia na visualização da proximidade entre termos e conceitos, fornece uma ferramenta para a exploração e análise social baseada em textos e ajuda a estabelecer hipóteses acerca dos significados que circulam nos mais diversos tipos de mídia.

Alguns relatos de uso de análise de redes foram apresentados no ICCSA 2014 realizado em julho na Universidade do Minho, Guimarães, Portugal. Entre eles:

Sensing World Heritage – An exploratory study of Twitter as a tool for assessing reputation – Vasco Monteiro, Roberto Henriques, Marco Painho e Eric Vaz. Os autores exploram a possibilidade de compreender a relação das pessoas com o patrimônio mundial usando informações coletadas no Twitter.

The Geographic Turn in Social Media: Opportunities for Spatial Planning and GeodesignMichele Campagna. O autor introduz o conceito de Social Media Geographic Information como fonte de informação e propõe um método apoiado na análise de texto para investigar a percepção e o interesse das pessoas no espaço/tempo, com impactos previstos em práticas de planejamento.

Complex Values-Based Approach for Multidimensional Evaluation of Landscape – Maria Cerreta, Pasquale Inglese, Viviana Malangone, Simona Panaro. Os autores descrevem uma experiência na aplicação de um framework para avaliação de valores culturais atribuídos à paisagem com base em análises das declarações de entrevistados.

Involving Citizens in Public Space Regeneration: The Experience of Garden in Motion - Sara Lorusso, Michele Scioscia, Gerardo Sassano, Antonio Graziadei, Pasquale Passannante, Sara Bellarosa, Francesco Scaringi, Beniamino Murgante. Os autores relatam uma experiência de processo participativo para a reabilitação de uma área residual da cidade de Potenza (Itália) e apresenta a rede semântica dos conteúdos que circularam em posts e comentários em páginas no Facebook.

City as Commons: Study of Shared Vision By Communities on Facebook – Maria Célia Furtado Rocha, Pablo Vieira Florentino, Gilberto Corso Pereira. Exercício exploratório de network text analysis a partir da extração de declarações de posts de grupos presentes em redes sociais digitais, das visões que compartilham e das ações que promovem visando à melhoria do espaço urbano.

 

Num trabalho prévio, os autores utilizaram Análise de Redes Sociais para compreender a estrutura desses grupos. O trabalho foi apresentado no INPUT 2014, na Università degli Studi di Napoli Federico II e no workshop “e-Participation Bahia-Potenza”, realizado na Università degli Studi della Basilicata (UNIBAS), Potenza, ambos em junho deste ano.

O artigo foi publicado na revista eletrônica TeMA: http://www.tema.unina.it/index.php/tema/article/view/2486

Uma experiência de reutilização e regeneração do espaço urbano

30, maio, 2014 Sem comentários

O desejo de realização de um parque na cidade de Potenza (sul da Itália), de transformar uma área degradada em área verde destinada à fruição pelos habitantes da cidade e do seu entorno, movimentou muitos de seus cidadãos em 2012 e 2013. O projeto inicial do Parco della Città foi enriquecido em discussões dos interessados e se constituiu em uma oportunidade de os cidadãos pensarem a cidade e experimentarem formas de participação pública com uso intensivo de redes sociais digitais (grupo Parco del Basento no Facebook).

Como fruto desse processo um grupo de pessoas continua a animar as discussões sobre o uso do espaço urbano em Potenza usando mídias sociais. Trata-se do grupo Il Giardino in Movimento (O Jardim em Movimento) que, seja no formato comunidade, seja através de fanpage, vem experimentando formas de compartilhar visões sobre os destinos da cidade e de obter um entendimento do que seja o interesse de todos, enfim do que seja o bem comum hoje para os cidadãos de Potenza.

A experiência do grupo foi apresentada na conferência REAL CORP 2014: “PLAN IT SMART! Clever Solutions for Smart Cities”, realizada em Viena nos dias 21 a 23 de maio de 2014.

O artigo publicado nos anais do evento informa que Il Giardino in Movimento sugere uma forma diferente de desfrutar um fragmento urbano e de cuidar de um espaço coletivo. E como, com base em uma interpretação das teorias do paisagista francês Gilles Clément, o grupo realizou um laboratório localizado em uma área residual da cidade de Potenza, na proximidade do ponte que cruza rio Basento, projetada pelo arquiteto italiano Sergio Musmeci.

Segundo o artigo, o laboratório representou um momento importante para a consciência do valor monumental da Ponte Musmeci e uma oportunidade de construir novos valores comunitários.O contexto foi estudado e analisado em todos os seus aspectos, o que deu base para a oficina de design e implementação de intervenções. Grande ênfase foi colocada sobre a educação da comunidade e a conscientização pública para alcançar os objetivos de conservação e melhoria dos meios de proteção e gestão do bem comum.

Como diz o artigo, a re-apropriação de espaços informais por grupos individuais ou informais de cidadãos através de reutilização e de ações de regeneração urbana são uma expressão do direito à cidade, uma forma de lutar contra a separação e a especialização de lugares impostas pela cidade formal.

Uma experiência similar de regeneração de espaços residuais com ênfase no aspecto educativo tem sido realizada na cidade do Salvador (Bahia) pelo grupo denominado Canteiros Coletivos.

Para ler sobre a experiência de Il Giardino in Movimento: http://programm.corp.at/cdrom2014/papers2014/CORP2014_94.pdf

Redes sociais na Internet (Recuero, 2010)

23, abril, 2014 Sem comentários

O estudo de redes sociais não é novo. O estudo da sociedade a partir do conceito de rede permeia a ciência durante todo o século XX.

A metáfora da rede foi utilizada pela primeira vez pelo matemático Leonard Euler, em 1736. Em seu artigo sobre o enigma das Pontes de Königsberg – uma cidade prussiana –, ao mostrar a inexistência de uma rota que permitisse cruzar as sete pontes da cidade sem jamais repetir o caminho, ele cria o primeiro teorema da teoria dos grafos.

Um grafo é a representação de uma rede, podendo ser utilizada como metáfora para diversos sistemas. A partir constatação, a teoria dos grafos obteve força no campo das Ciências Sociais, principalmente através de estudos empíricos que deram origem ao que hoje é referenciado como Análise Estrutural de Redes Sociais. Essa abordagem propõe perceber grupos de indivíduos conectados como rede social, extraindo, a partir dos teoremas dos grafos, propriedades estruturais e funcionais das observações empíricas.

Os estudos de redes receberam atenção renovada após a publicação dos trabalhos de Barabási (2003), Barabáse e Albert (1999), Watts (2003), Watts e Strogatz (1998), dentre outros, no final da década de 90 e início dos anos 2000. A abordagem de redes encontrou eco nos estudos dos agrupamentos sociais no ciberespaço.

Essa abordagem torna necessária a construção empírica qualitativa e quantitativa, na busca, através da observação sistemática dos fenômenos, de verificar padrões e teorizar sobre os mesmos. Estudar redes sociais é, portanto, estudar os padrões de conexões expressos no ciberespaço. É explorar uma metáfora estrutural para compreender elementos dinâmicos e de composição dos grupos sociais.

Fonte: RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2010. (Coleção Cibercultura)

Resumo (cap. 1 e 2): RECUERO 2010 – Redes sociais na internet

Sociabilidade, capital social e análise das redes sociais

23, abril, 2014 Sem comentários

Em sociologia, a noção de sociabilidade designa não a qualidade intrínseca de um indivíduo mas simplesmente o conjunto de relações que um indivíduo entretém com os outros e as formas que essas relações tomam.

A sociabilidade pode ser vista como recurso individual, como resultado de estratégias colocadas em cena por atores sociais que gerem um “capital social” de relações. De um ponto de vista que podemos qualificar de macrosociológico, a sociabilidade pode ser considerada como um bem coletivo, um princípio de coesão social. Segundo Putnam (1995), a sociabilidade é mais um bem coletivo do que um recurso privado, porque ela é um questão para a coesão social e para a democracia.

Na França o sucesso da noção de “capital social” se deve à utilização feita por Pierre Bourdieu (1980, 1983-1986). No trabalho de Bourdieu, a noção de capital social, em razão do seu papel secundário, foi em grande parte usada metaforicamente e não levou a ferramentas analíticas. De fato, é sobretudo no seio do campo específico, e mais especificamente anglo-saxônico, da análise das redes sociais que esta noção foi reconhecida como fundamental e objeto de uma quantidade de estudos empíricos e de desenvolvimentos teóricos. Leia mais…

Sociologia das Redes Sociais – conceitos e história

20, abril, 2014 Sem comentários

A noção de rede social (social network) apareceu pela primeira vez num artigo do antropólogo britânico A. Barnes (1954). Depois disso o recurso à noção de rede para designar os conjuntos de relações entre pessoas ou entre grupos sociais se expandiu no interior e às margens das ciências sociais.

Trata-se de um conjunto de métodos, conceitos, teorias, modelos e pesquisas usadas na sociologia assim como em outras disciplinas das ciências sociais (antropologia, psicologia social, economia, etc.) que consiste em tomar como objeto de estudo não mais os atributos dos indivíduos (sua idade, profissão…) mas as relações entre os indivíduos e as regularidades que elas apresentam, para descrevê-las, dar-se conta de suas formação e suas transformações, analisar seus efeitos sobre os comportamentos individuais.

O estudo dessas relações e das regularidades que apresentam, a sociologia das redes sociais, o desenvolvimento de modelos e métodos específicos apoiados por ferramentas matemáticas baseadas na teoria dos grafos e na álgebra linear, se constituiu em domínio próprio e institucionalizado.

Barnes inventou a noção de “rede social”, e Stanley Milgram (1967) pode ter sido o primeiro a fazer o esforço de demonstrar empiricamente algumas de suas intuições. Em realidade, costuma-se voltar um pouco mais no tempo, ao início do século XX, para encontrar as suas raízes: o precursor mais sistematicamente convocado é com efeito o filósofo e sociólogo alemão, Georg Simmel (1858-1918).

Para Wasserman e Faust (1994) assim como para outros a história da análise das redes sociais não se inciou com Simmel mas com Moreno, nos Estados Unidos, nos início dos anos 1930. Jacob Lévy Moreno (1889-1974) é o fundador da sociometria. Moreno elabora um instrumento para representar os resultados – o “sociograma”. Ele é ao mesmo tempo um instrumento de apresentação e de exploração dos fatos sociométricos, permitindo figurar a posição que cada indivíduo ocupa no grupo. Os indivíduos figuram como como pontos em um plano, e relações de escolha ou rejeição estabelecidas entre os indivíduos.

A análise das redes sociais, uma metodologia quantitativa Leia mais…

Esfera pública em rede

25, março, 2014 Sem comentários

[Fonte: FRIEDLAND, Lewis A.; HOVE, Thomas; ROJAS, Hernando. The networked public sphere. Javnost – the public, v. 13 (2006), n. 4, pp. 5-26.]

Redes estão se tornando centrais para a compreensão de sistemas complexos. Isso toca também o conceito de esfera pública. O conhecimento das estruturas de rede abre novas perspectivas para a formação da opinião pública entre esferas que até agora têm sido concebidas como funcionalmente conectadas. Ao contrário do aparato neo-parsoniano (o sistema funcionalista) que concebe esferas da sociedade em separado, a chamada “ciência das redes” concebe trocas e fluxos que circulam entre a esfera pública política e a esfera pública informal, a esfera pública informal e a sociedade civil, a sociedade civil e o mundo da vida, e assim por diante.

Uma vez que a esfera pública está crescentemente sendo integrada por redes de formação de opinião, sua estrutura é um caso privilegiado para o estudo da importância das redes para a teoria social e para a teoria da comunicação.

Redes de fluxos têm dinâmica diferente de sistemas de dependência funcional. Eles se movem de baixo para cima mais livremente, se auto-organizam em “vizinhanças” que formam subsistemas de comunicação retroalimentados. Dependências funcionais ainda existem (p. ex., dependência do sistema político em relação à esfera pública), mas eles têm muito mais fluidez e crescente influência mútua. Relacionado a isso, a direção da comunicação através do sistema social se torna mais complexa e menos previsível. Contemporaneamente, a lógica das redes redesenhou os fluxos e a direção da comunicação; em particular elas afrouxaram as dependências dos subsistemas, incrementaram o fluxo de informação a partir de baixo e criaram grande instabilidade através de todo o sistema.

O modelo de Habermas tenta explicar como a comunicação mediada pode ajudar o sistema político a alcançar os objetivos normativos da democracia deliberativa. O papel da esfera pública seria o de filtrar as opiniões publicadas e votadas que recebe, de modo que apenas as opiniões públicas cuidadosamente consideradas passem por ela. Leia mais…

Comentários sobre experimentos em democracia deliberativa

11, março, 2014 Sem comentários

Fonte: GINSBORG, Paul. La democrazia che non c’è. Torino: Einaudi ed., 2006.

O período em que vivemos apresenta pontos de contato com os anos 70 do século passado. Naquela época em toda a Europa, em particular na Itália, houver amplas mobilizações em favor da extensão da democracia em várias esferas. Norberto Bobbio nos seus escritos da época notava que um poder ascendente se difundia em várias esferas da sociedade civil, coisa que sintetizou em uma fórmula: “da democratização do estado à democratização da sociedade”. Desafortunadamente não houve transformações desse gênero e os resultados desiludiram.

A falência derivou – e não em pequena medida – da incapacidade e da falta de vontade dos partidos políticos de esquerda de canalizar o grande desafio para novas formas de governance, de repensar a participação democrática e de romper com um modelo de política no qual sua posição era reforçada mas a democracia representativa em seu conjunto era debilitada. Seria bom não cometer o erro uma segunda vez.

Em toda a Europa se difunde a retórica do empowerment que sublinha a necessidade de escutar as pessoas e envolvê-las nos processos decisórios. A União Europeia em vários comunicados e programas não hesita em evidenciar expressões como envolvimento dos cidadãos e participação. Todavia se a participação não assume formas sólidas, realizáveis e constantes tudo isso não dará resultado. O debate e experimentações recentes no âmbito da democracia “deliberativa” ajudam muito no percurso da inovação e renovação.

O adjetivo inglês deliberative referindo-se à democracia traz em si o duplo significado de discutir e de decidir. É central aqui a ideia de chegar-se a uma decisão envolvendo todas as partes em questão ou seus representantes. O método utilizado é um debate inserido em um contexto estruturado de colaboração baseado sobre informação adequada e sobre uma pluralidade de opiniões, com precisos limites de tempo dentro dos quais se deve chegar a uma decisão.

Os experimentos e as propostas de democracia deliberativa assumiram uma gama muito ampla de formas. Leia mais…